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Esclerose
Múltipla (EM) |
A esclerose
múltipla (EM) ou esclerose disseminada é uma
doença neurológica crônica, de causa ainda
desconhecida, com maior incidência em mulheres e
indivíduos da raça branca.
Este
tipo de patologia
leva a uma
destruição da bainha de mielina que recobre e isola as
fibras nervosas do sistema nervoso central (estruturas do
cérebro).
Esta doença
causa uma piora do estado geral do paciente, levando-o à
fraqueza muscular, rigidez articular, dores articulares e
descoordenação motora causando dificuldades para realizar
vários movimentos com os braços e pernas, perda do
equilíbrio em pé, dificuldade para andar, tremores, e
formigamento em partes do corpo.
Em
alguns casos pode
causar
insuficiência respiratória, incontinência ou
retenção urinária, alterações
visuais graves, perda de audição, depressão e
impotência sexual.
Em estágios
mais graves da doença, podemos observar um comprometimento
respiratório, levando inclusive a episódios de
infecção ou insuficiência respiratória, que
devem ser tratados com atenção e rapidez, minimizando o
desconforto do paciente e uma provável piora do seu estado geral.
Exercícios
para
desobstruir
os brônquios, exercícios para reexpansão pulmonar,
reeducação diafragmática e da musculatura
acessória, com uso de incentivadores respiratórios,
são métodos utilizados para minimizar os desconfortos
causados por esta patologia.
Etiologia
A causa
directa da EM é a degeneração da camada isoladora
lipídica de mielina que envolve os axónios neuronais.
Esta é provavelmente causada pela destruição, pelo
próprio sistema imunitário do indivíduo, das
células gliais que produzem e armazenam essa mielina. A
ausência de isolamento eficaz dos neurónios, e da sua
sustentação pelas células gliais, leva à
degeneração dos mesmos e à perda de
função.
As regiões
afectadas são as do sistema nervoso central (SNC), isto é
a espinhal medula e o cérebro. Os nervos periféricos
não são afectados, provavelmente porque a
reacção imunitária que danifica as células
gliais será específica para os antigénios do tipo
das células produtoras de mielina do SNC, os
oligodendrócitos, que são diferentes das células
com a mesma função no sistema nervoso periférico,
as células de Schwann.
Um mecanismo
possível: Em indivíduos com susceptibilidade
genética (com genes de HLA DR15 ou DQ6 por exemplo) uma
infecção viral no SNC pode levar grande número de
linfócitos T a atravessar a barreira hemato-encefálica.
Estes linfócitos então destruirão o vírus
mas também, erroneamente, identificarão antigénios
self da mielina, apresentados de forma altamente estimulante pelas
células gliais danificadas, ou pelos microglios, devido a alguma
predilecção das proteínas apresentadoras de
antigénios (HLA) de esse indivíduo para apresentar
péptidos da mielina que os linfócitos T reconhecem como
não pertencentes ao indivíduo ou antigénios
non-self. A partir daí gera-se uma resposta imunitária
TH2 (produtora de anticorpos) às próprias células
produtoras dessas proteínas da mielina.
A
destruição de células gliais leva à
libertação de mais proteínas da mielina e maior
agressão, até que algum mecanismo limitador do sistema
imunitário (p.ex. os linfócitos-T-supressores) iniba os
linfócitos agressores temporariamente, levando à
remissão.
Este
mecanismo é
suportado
pela descoberta de altos valores de anticorpos (gama-globulinas) no
líquido cefalo-raquidiano dos doentes.
A EM tem
predilecção para danificar as vias neuronais que
controlam os movimentos musculares, daí decorrendo a maior parte
dos seus sintomas.
Manifestações
clínicas
O início pode ser dramático ou insidioso.
Os sintomas
são diversos e podem ser devidos a pouca ou demasiada
excitabilidade das vias, de acordo com o tipo de neurónios,
excitadores ou inibidores, que é afectado nessa região.
Podem incluir sintomas por falta de função de vias excitatórias como:
- ataxia (andar e
movimentos dos braços irregulares e com tremores);
- movimentos
irregulares dos olhos como nistagmus e oftalmoplegia
internuclear;
- defeitos na
pronunciação das palavras (disartria);
- neurite retrobulbar;
- disfunção sexual e
urinária;
- depressão e
dificuldades de memória.
A fadiga é um
sintoma muito frequente e bem conhecido da EM. Mas porque pode
também ser um sinal de outras doenças, não
é imediatamente identificado como sendo causado pela EM. A
fadiga manifesta-se muitas vezes sob a forma de períodos que
podem durar alguns meses, durante os quais a sua energia se esgota
diariamente após um pequeno esforço. A fadiga ocorre quer
na EM em forma de surtos, quer nos tipos mais progressivos da
doença.
Ou
devidos à disfunção
das vias inibitórias como:
- espasmos
musculares;
- parestesia ou sinal
de Lhermitte (sensação de 'choques elétricos' no pescoço).
A progressão
da doença é bastante variável, distinguindo-se
três subtipos de EM, de acordo com a sua evolução.
A maioria dos doentes segue um curso de remissões alternadas com
exacerbações.
Cerca de 10-15% segue
um curso mais grave e inexoravelmente progressivo, e em 25% dos casos a
progressão é lenta, com sintomas moderados.
Epidemiologia
A maioria dos
casos é diagnosticada em adultos jovens, sendo raros os
diagnósticos em pessoas com mais de 50 anos. Afeta duas vezes
mais mulheres que homens num percentual de 3 para cada homem. Na
Europa, os países escandinavos são os mais afetados. A
presença da doença num familiar significa possível
predisposição genética, havendo 15 vezes maior
probabilidade de contração da condição.
Estimam-se mais de um
milhão de casos mundiais diagnosticados, dos quais 450.000 na
Europa. Em Portugal haverá mais de 5.000 casos diagnosticados.
Patologia
As regiões desmielinizadas são localizadas e assumem o
aspecto de placas que mais tarde esclerosam.
As
lesões iniciais
caracterizam-se por infiltração de leucócitos
mononucleares, em volta das vénulas, incluindo
linfócitos, plasmócitos, e desmielinização
individual dos axónios adjacentes.
Lesões tardias são geralmente de todo um feixe de axónios.
Há
infiltração
de macrófagos e microglia com aspecto de célula de
espuma, ou seja, que fagocitaram grandes quantidades de lípido,
certamente mielina.
As lesões
variam de localização com o tempo, havendo
regeneração da mielina e formação de novos
focos de agressão.
Um
modelo animal da
doença
pode ser obtido pelo inoculação de proteínas da
mielina na corrente sanguínea de cobaias. As células T
activadas destes animais causam a doença em outros não
inoculados. Este facto fortemente sugere uma etiologia auto-imune para
esta condição patológica.
Tratamento
A EM não tem cura e a terapêutica
está direccionada para atrasar a progressão e diminuir a
disrupção na vida do paciente pelo alívio dos
sintomas.
A
administração de corticosteróides
(imunossupressores potentes) é usada em casos de
episódios ou relapsos agudos. Outros imunossupressores como os
análogos das purinas (azatioprina) também têm tido
resultados. A terapia com beta-interferão, que tenta diminuir a
resposta TH2 dos linfócitos para uma TH1 (com menor
produção de anticorpos) tem tido resultados encorajadores
em apenas cerca de um terço a metade dos pacientes.
O uso de terapias
imunológicas como administração de citocinas
poderá ser o campo que gerará uma terapia mais eficaz no
futuro, no entanto testes iniciais têm sido desapontadores.
Prognóstico
Sob
observação e tratamento médicos apropriados, que
evitam complicações como as infecções de
alguns orgãos, a esperança de vida dos pacientes é
só moderadamente diminuída.
A idade em que se
iniciaram os sintomas é o principal factor de
prognóstico: quanto mais jovem, mais provável será
deterioração mais precoce. Outro factor será o
subtipo de EM. Uma minoria poderá não ter um curso
progressivo, outra minoria terá um desenvolvimento severo e
rápido dos sintomas. Aqueles cujo primeiro sintoma foi a
dificuldade visual também têm melhor prognóstico
que outros que sofreram inicialmente de problemas de
coordenação motora dos membros.
O principal problema
para o doente com EM é a progressiva disabilidade em que se
encontra. Só um terço dos doentes será capaz de
trabalhar normalmente após 20 anos. A maioria necessitará
de utilizar cadeira de rodas para se movimentar antes de 20 anos depois
do surgimento dos primeiros sintomas, e alguns antes de 6 anos.
A Fisioterapia e
Hidroterapia melhoram e ajudam muito a recuperação,
mantendo o paciente ativo e com forças nos membros inferiores
que são os mais afetados. Procurar não parar as suas
atividades normais e adaptá-las é fundamental para uma
boa qualidade de vida do paciente.
Na
história
O primeiro
caso descrito conhecido de EM, em termos que apontam quase certamente
para esse diagnóstico, foi efectuado pela freira holandesa
Lidwina de Schiedam (1380-1433) que descreveu a doença de que
ela própria padecia desde os 16 anos. Ela escreveu sobre dores
intermitentes, fraqueza das pernas e distúrbios oculares
típicos.
A primeira
descrição científica da EM, que a introduziu como
doença específica reconhecida pela Medicina, só
foi feita no início do século XIX. Foram os
médicos e patologistas ingleses Robert Hooper (1773–1835)
e Robert Carswell (1793–1857), e o francês Jean Cruveilhier
(1791–1873) que publicaram os seus detalhes médicos e
ilustrações das suas características.
No
entanto, foi em
1860 que o
médico neurologista francês Jean-Martin Charcot
(1825–1893), com a síntese que escreveu do trabalho dos
seus predecessores e à qual adicionou mais
observações significativas, levou ao reconhecimento da
esclerose múltipla (Sclerose en plaques no trabalho original)
como doença distinta para a Medicina.