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Apnéia do Sono
A síndrome da apnéia obstrutiva do sono é um problema comum que
continua a ser subdiagnosticado pela comunidade médica. Estima-se que
ela afeta aproximadamente 2% a 4% da população adulta. Isto equivale à
prevalência da asma e do diabete na população geral. O espectro da
doença vai desde pacientes com interrupção do sono relacionada com o
aumento da resistência das vias aéreas até a sonolência diurna profunda
em conjunção com a dessaturação severa da oxiemoglobina, hipertensão
pulmonar e insuficiência cardíaca direita. A característica comum em
todas as variantes da síndrome da apnéia obstrutiva do sono é
interrupção do sono secundária ao aumento do esforço ventilatório
acarretando uma sonolência diurna exagerada.
Os eventos da apnéia do sono podem ser
obstrutivos (em virtude do fechamento das vias aéreas superiores ) ou
centrais (em conseqüência da ausência do esforço ventilatório ).
As lesões primárias do sistema nervoso
central, o acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca
congestiva e a hipoxemia decorrente da alta altitude podem diminuir o
controle respiratório e causar episódios de apnéia central. Se houver
uma diminuição significativa, mas incompleta, do fluxo aéreo, o evento
é denominado hipopnéia, que foi definida como uma diminuição de 30% a
50% do fluxo aéreo.
FISIOPATOLOGIA
A causa primária da apnéia obstrutiva do sono é uma via aérea faríngea
pequena ou instável. Isto pode ocorrer em razão de fatores dos tecidos
moles, como a obesidade da região superior do corpo, por fatores
esqueléticos, como queixo pequeno ou retraído. Durante o estado de
alerta, a potencia da faringe é mantida pelo aumento da atividade dos
músculos dilatadores das vias aéreas.
O estreitamento ou fechamento parcial ou
completo das vias aéreas superiores durante o sono apresentam muitas
conseqüências graves cardiopulmonares e neurocomportamentais.
Acredita-se que o ciclo repetitivo de fechamento e abertura da via
aérea durante o sono tenha efeito sobre o sistema nervoso autônomo
especificamente aumentando o tônus simpático. Isso se deve, em partes,
aos episódios de hipoxemia e hipercapnia que ocorrem durante o sono,
resultantes do fechamento das vias aéreas e hipoventilação. O aumento
de despertar ou, minidespertar durante o sono também tem papel
importante no aumento do tônus simpático. No decorrer dos anos, o
resultado final do tônus simpático aumentado é a hipertensão sistêmica
e pulmonar.
A obesidade da porção superior do corpo
revelou estar correlacionada positivamente com apnéia obstrutiva do
sono, isso pelo aumento do tecido adiposo no pescoço e no tecido
perifaríngeo. Os pacientes com peso corpóreo normal podem apresentar
predisposição a apnéia obstrutiva do sono se apresentarem uma
conformação craniofacial anormal. Se o queixo for retraído
(retrognatia) ou pequeno (micrognatia), o espaço das vias aéras
superiores pode ser estreitado e o risco de fechamento da via aérea
durante o sono pode ser aumentado. Adicionalmente, os pacientes co
desvio de septo ou traumatismo nas vias nasais podem estar predispostos
ao fechamento das vias aéreas durante o sono, como resultado do aumento
da “carga resistente” das vias aéreas superiores. No entanto, uma
anormalidade nasal isolada é uma causa incomum de apnéia obstrutiva do
sono.
SINDROME DE SOBREPOSIÇÃO
Alguns pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) possuem uma apnéia obstrutiva do sono (AOS) concomitantemente. Isto é denominado de síndrome de sobreposição. Esses pacientes usualmente são obesos e apresentam uma história de tabagismo. Eles apresentam dessaturação noturna da hemoxiemoglobina moderada a severa decorrente tanto da AOS quanto da DPOC. No entanto, as piores dessaturações ocorrem durante a fase de movimento rápido dos olhos (REM) do sono e estão relacionadas com a perda do uso dos músculos acessórios observada nesta condição fisiológica. Estes pacientes tendem a ter prognóstico pior dos que os pacientes com AOS mas sem DPOC. Eles podem ser internados na unidade de terapia intensiva como uma “exacerbação da DPOC” e insuficiência cardíaca direita descompensada. A AOS não diagnosticada complica sua evolução a noite, com despertar, aumento da dispnéia e dessaturações resistentes à suplementação de oxigênio.
EXAMES LABORATORIAIS
Quando um paciente é suspeito de apresentar apnéia do sono, um estudo
do sono noturno deve ser realizado para confirmar o diagnóstico
clínico. Atualmente o padrão ouro é a monitorização com polissonograma
durante toda à noite no laboratório do sono realizada por um técnico
especializado.
Um estudo laboratorial do sono
acompanhado registra vários sinais fisiológicos para determinar se
ocorre fechamento das vias aéreas durante o sono e qual a extensão ele
perturba a continuidade do sono e a função cardiopulmonar. Entre os
sinais registrados estão o eletroencefalograma (EEG), o
eletro-oculagrama e o eletromiograma do queixo (para determinar o
estágio do sono e para documentar a interrupção do sono em razão dos
distúrbios respiratórios relacionados ao sono), o fluxo aéreo
(mensuração do nariz e boca), o esforço ventilatório (usualmente
avaliado pelos movimentos da caixa torácica e do abdômen), o
eletrocardiograma (para avaliar o impacto da apnéia sobre o ritmo
cardíaco) e a saturação de oxigênio (mensurada pela oximetria de pulso).
Uma vez o estudo terminado, ele é
pontuado pelo técnico. Usualmente, o número de apnéias e hipopnéias por
hora de sono é relatado com um índice de apnéia-hipopnéia ou por um
índice de distúrbio respiratório. Embora não exista concordância total
sobre os valores exatos que definam a gravidade da respiração
perturbada pelo sono, um índice apnéia-hipopnéia superior a 40 é
compatível com uma apnéia do sono moderada a severa, enquanto que um
índice inferior a 5 é considerado dentro da faixa normal.
Existem controvérsias sobre a
possibilidade de aparelhos portáteis poderem diagnosticar a apnéia do
sono tão bem quanto a polissonografia tradicional de uma noite inteira,
uma vez que muitas variáveis, como o fluxo aéreo, o esforço
ventilatório, o estágio do sono e a saturação de oxigênio, podem ser
mensuradas de forma menos precisas ou não serem mensuradas.
TRATAMENTO
O tratamento da AOS deve ser individualizado, mas geralmente pode ser
dividido em 3 opções: intervenções comportamentais, clínicas e
cirúrgicas. Todos os pacientes devem ser submetidos ao tratamento
comportamental. O tratamento clínico e cirúrgico devem ser adequados ao
paciente, levando-se em conta a possibilidade de aceitação e cooperação
com a intervenção terapêutica prescrita. Os objetivos do tratamento
devem ser a normalização da saturação de oxigênio e da ventilação, a
eliminação das apnéias, hipopnéias e do ronco e a melhoria da
continuidade do sono.
Várias intervenções comportamentais
podem ser benéficas. Elas incluem a perda de peso pelos obesos, a
evitação do álcool, sedativos e hipnóticos e a privação do sono. A
perda do peso do paciente obeso pode diminuir a severidade da apnéia do
sono. No entanto, esta é uma das estratégias comportamentais mais
difíceis de ser implementada. Sabe-se que o álcool diminui o limear do
despertar, prolongando os episódios de apnéia. O álcool também diminui
o tônus muscular das vias aéreas superiores, criando uma via aérea mais
complacente e mais propensa ao fechamento parcial ou completo. Os
sedativos e os hipnóticos também podem diminuir a estabilidade das vias
aéreas superiores, assim como suprimir certos estágios do sono, mais
notavelmente o estágio REM nos casos dos benzodiazepínicos.
Nos pacientes cujo estudo do sono indica
que a apnéia e o ronco estão presentes na posição supina, ensiná-los a
dormir em decúbito lateral pode ser benéfico. Os efeitos a longo prazo
da terapia postural são desconhecidos e ela geralmente é recomendada
para os casos mais leves de AOS postural.
TERAPIA COM PRESSÃO POSITIVA CONTÍNUA NAS VIAS AÉREAS SUPERIORES (CPAP)
A terapia com pressão positiva foi introduzida inicialmente como um
tratamento da AOS em 1981. Atualmente ela se tornou uma terapia clinica
de primeira linha da AOS, com múltiplos estudos documentando a sua
eficácia na diminuição da morbidade e mortalidade associadas. Para a
maioria dos pacientes, a obstrução das vias aéreas superiores é abolida
por CPAPs entre 7,5 a 12,5 cmH2O. O nível de CPAP necessário para
tratar de maneira ideal a AOS é melhor determinado pela titulação
realizada no laboratório do sono.
A terapia com CPAP demonstrou diminuir a
sonolência diurna, aumentar a pontuação nos testes neurocognitivos e do
estado de alerta, diminuir a hipertensão pulmonar e a insuficiência
cardíaca direita e diminuir o número de despertar relacionado com a
respiração e reduzir os eventos cardíacos noturnos.
O mecanismo pelo qual se acredita que a
terapia com CPAP funciona, consiste na manutenção das vias aéreas
superiores abertas através do aumento da pressão intraluminar das vias
aéreas superiores acima de uma pressão transmural crítica da
faringe/hipofaringe que está associada com o fechamento da via aérea. O
palato mole é efetivamente movido para a frente contra a língua, a qual
pressuriza as vias aéreas superiores. A CPAP permite que as vias aéreas
superiores sejam mantidas abertas se houver um único local (incomun) ou
múltiplos locais (mais comum) de estreitamento e/ou fechamento das vias
aéreas. Os investigadores também demonstram que quando a CPAP nasal é
utilizada, existe uma depressão eletromiográfica dos músculos
dilatadores das vias aéreas superiores.
Com o objetivo de ser bem sucedida, a
titulação da CPAP deve inicialmente bloquear totalmente todas as
apnéias e diminuir o numero de hipopnéias para impedir a dessaturação
arterial do oxigênio. O paradoxo tóraco-abdominal e o ronco devem devem
ser eliminados para melhorar a continuidade do sono, o despertar e o
microdespertar eletroencefalográficos relacionados com a respiração
também devem ser abolidos. Não existem evidências que apóiem a
concepção errônea de que sempre é necessário um nível mais elevado de
CPAP com pacientes com apnéia do sono mais severa. Alguns pacientes com
elevações mais discretas do índice apnéia-hipopnéia necessitam de
níveim mais elevados de CPAP do que aqueles com índices
substancialmente maiores.
Apesar dos numerosos estudos
documentando a eficácia do CPAP no tratamento de pacientes no
laboratório do sono, o difícil tem sido fazer com que estes pacientes
utilizem os aparelhos de CPAP. Aproximadamente 80% dos pacientes
aceitam a CPAP, embora a complacência objetiva a longo prazo seja
inferior à ideal. A complacência objetiva, definida como o uso do
aparelho por mais de 4 horas por dia durante mais de 70% das noites
observadas, foi considerada baixa (de até 46%). A cooperação nem sempre
está correlacionada com a gravidade do índice apnéia-hipopnéia. O
benefício sentido pelo paciente é um melhor preditor. Além disso a
complacência co o tratamento de um mês é relatada como sendo um bom
preditor do uso da CPAP de 3 mêses.
Desde a introdução da CPAP, uma
variedade de interfaces fotam projetadas, com o objetivo de melhorar a
complacência através do aumento do nível de conforto do paciente:
cateteres nasais, máscaras nasais com bolhas ou bordas confortáveis,
máscaras oronasais e mesmo máscaras faciais totais. Na prática alguns
pacientes toleram uma interface melhor que a outra.
TERAPIA COM PRESSÃO POSITIVA: TERAPIA COM 2 NÍVEIS DE PRESSÃO
Uma outra forma de terapia com pressão positiva que foi recentemente
desenvolvida e conhecida como terapia com dois níveis de pressão
positiva das vias aéreas (BIPAP). A BIPAP foi desenvolvida para tirar
vantagem do fato de que em alguns pacientes podem existir necessidades
de pressões diferentes entre a inspiração e a expiração. As unidades de
dois níveis funcionam com corrente elétrica domiciliar e possuem um
tamanho e um aspecto semelhante aos das unidades convencionais de CPAP.
Existe uma diferença substancial de custo, sendo a unidade de BIPAP
quase duas vezes mais cara do que uma unidade de CPAP.
Ao contrário da CPAP convencional, a
BIPAP é titulada através do aumento da pressão positiva inspiratória
das vias aéreas (IPAP) e da pressão positiva expiratória das vias
aéreas (EPAP) separadamente em resposta às apnéias, hipopnéias e
dessaturações. Embora o algoritmo especifico utilizado possa variar de
laboratório para laboratório, em geral a IPAP esta sempre aumentada
acima do nível da EPAP em resposta das apnéias e hipopnéias que ocorrem
quando ambas as pressões são iguais.
TERAPIA COM PRESSÃO POSITIVA: DISPOSITIVOS AUTOTITULADOS
Uma nova geração de dispositivos de CPAP autotitulados foi recentemente desenvolvida com o objetivo controlar os problemas de complacência do paciente, o conforto do paciente e os requerimentos de alterações da pressão das vias aérea superiores durante a noite. Esses dispositivos foram denominados “auto-CPAP”, “CPAP inteligente” ou “CPAP esperta”. Eles utilizam um algoritmo computadorizado para ajustar a CPAP em tempo real quando detectam um funcionamento anormal das vias aérea superiores, mas manifestado pelos roncos, hipopnéias e apnéias. Esses dispositivos podem reduzir a pressão média noturna necessária para o tratamento de pacientes e, talvez, minimizar os escapes relacionados com a interface por causa das pressões globais menores requeridas durante a noite.
EFEITOS COLATERAIS DA TERAPIA COM PRESSÃO POSITIVA
Alguns efeitos colaterais comuns da terapia com pressão positiva estão
relacionados com a interface e com a pressão prescrita.
Eles incluem a sensação de
claustrofobia, a congestão nasal, rinorréia, a irritação cutânea e o
ressecamento nasal. A claustrofobia e a irrritação cutânea podem ser
tratadas com a mudança da interface para uma mais facilmente tolerada
pelo paciente. A congentão nasal, a rinorréia, a irritação cutânea e o
ressecamento nasal podem ser tratados utilizando-se uma combinação de
esteróides tópicos nasais, anti-histamínicos, sprays nasais e loções
nasais de solução salina. Também pode ser adicionado um umidificador ao
aparelho. Se a queixa for uma sensação de muita pressão no nariz, a
adição de um sistema equipado com uma rampa pode se revelar benéfico. A
rampa permite que a pressão seja gradualmente aumentada durante um
período de 5 a 45 minutos. Não existem evidências objetivas de que a
rampa aumente a aceitação ou a complacência do paciente.
A maioria das interfaces são do tipo
nasal. Ocasionalmente, existem pacientes que tendem a respirar pela
boca. A adição de uma atadura de queixo pode não resolver o problema. A
mudança de interface para uma máscara oronasal pode ser necessária para
que haja uma pressurização eficaz das vias aéreas superiores.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
SCANLAN,C.L., WILKINS,R.L., STOLLER, J.,K. Fundamentos da Terapia Respiratória de Egan. 7º edição. Asheville, North Carolina, 2000.
OBSERVAÇÕES (POR DRA. ERECINA FIGUEIREDO):
Já existe consenso para classificar as apnéias, algumas complementações em relação ao artigo acima:
AOS = Apnéia Obstrutiva do Sono.
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